Para a estreia escolhi o acompanhamento do restauro de uma automóvel que quando terminado será disponibilizado para venda pela RSC Great Old Classics. Aqui vai a primeira publicação.
MGC GT Chassis nº G-CD1-L/4122-G Motor nº 28G-U-H/2855
Automóvel português com matrícula obtida no final de 1968. O registo Heritage mostra que se encontra de acordo com as especificações com que saiu da fábrica incluindo o seu motor e caixa de velocidades s/overdrive.
Este automóvel é um dos 650 destinados a exportação para todos os mercados com excepção dos Estados Unidos, que receberam 1.773 exemplares produzidos especificamente para este mercado, tendo diferenças significativas do resto da produção nomeadamente nos interiores cujo tablier que requeria inclusive uma estrutura de suporte diferente. A restante produção para o total de 4.557 foi destinada ao mercado de Reino Unido, (2.034) com volante à direita.
Estava a funcionar, com uma carroceria e motor excepcionalmente pouco usados, esteve parado numa garagem mais de 30 anos. Tinha alterações na carroceria nomeadamente extensões para albergar jantes especiais (da época), que requereram uma conversão de cubos de aperto central para cubos de 5 porcas. Tinha também os estofos originais de pele preta com piping vermelho, substituídos por napa com a mesma configuração e alcatifas originais mas com sinais claros de terem sido negligenciadas.
Numa inspecção mais cuidada pode confirmar-se a quase total ausência de corrosão, mas descobriu-se uma reparação de acidente na zona do guarda-lamas da frente esquerda mal executada, provavelmente nos primeiros anos de utilização, claramente numa época em que o cuidado de recuperação não era prioridade. Foi provavelmente nessa altura que foram feitas as alterações relatadas antes e o abandono das jantes de raios originais.
Chegados aqui punha-se a pergunta cada vez mais importante.
Utiliza-lo assim embora o nível de preservação deixasse um pouco a desejar, ou restaurar? Arrisco partilhar as minhas reflexões sobre este tema.
Esta é uma questão que até há uns anos muito poucos entusiastas se poriam, porque a esmagadora maioria, se podia, partia imediatamente para o restauro regra geral com o objectivo de ter um carro em que tudo parecesse novo, a brilhar. Os mais exigentes procurariam manter as especificações originais de materiais, cor de carroceria e interiores, mas muitos mudavam cores, estofavam como mais lhes agradava mesmo utilizando materiais não disponíveis na época, e até faziam alterações mecânicas com mais ou menos sentido, ou até estéticas, como cromar e polir tudo o que era metal onde pudessem por a mão.
Para alguns dos entusiastas o prazer máximo era obtido com pinturas brilhantes interiores novos e acabados de forrar, e motores tão limpos e brilhantes que mais pareciam instrumentos de bloco operatório. Os seus clássicos faziam poucos quilómetros, nunca saiam que não fosse num dia de sol com a estrada completamente seca para que não houvesse risco de alterar este estado imaculado.
Houve sempre no entanto uma minoria de outsiders que, quer por fundamentalismo no que respeita à originalidade, quer por que gostavam dos seus clássicos com o aspecto usado e até “velho”, ou muitas vezes até por falta de dinheiro para restauros, mantinham os seus carros tal como tinham saído da fábrica cuidando da sua manutenção. Outros mantinham-nos fechados em garagens durante anos porque o único interesse que tinham, parecia ser somente o da sua posse.
Actualmente o conceito de preservação está claramente em alta e o conceito de restauro também está em grande mudança. Quando falamos de preservação estamos a falar de veículos que sempre foram bem mantidos, que mesmo mostrando sinais de muito uso e quilometragens elevadas não têm corrosão significativa ou alterações estruturais resultado de acidentes, mantendo pinturas e interiores em boas condições. Havendo alterações têm que estar devidamente documentadas, como por exemplo mudanças de motor efectuadas pelo fabricante. Acima de tudo que possam ser usados sem necessitar de cuidados especiais a não ser os de manter essa preservação.
Carros e motos preservados, principalmente se não tiverem sido fabricados em grandes quantidades, têm cada vez mais preços de venda acima dos seus irmãos restaurados na velha escola de por tudo novo, na maioria dos casos com materiais e peças, até de boa qualidade, mas não as com que foram fabricados.
Quer dizer que vai deixar de se restaurar? Claro que não.
O estado preservado que falámos antes não significa negligenciado, deteriorado e com mecânica sem possibilidade de uso normal.
Em muitos casos não é possível até preservar.
Para os casos em que uma utilização normal não é possível, ou o valor determina uma boa recuperação, o restauro continua vivo e bem vivo. No entanto agora é feito com muito cuidado. Um bom restauro é cada vez mais um projecto com pouca improvisação. Já bastam as surpresas que mesmo planeando tudo, podemos encontrar. Não pode haver restauro que não comece com uma pesquisa exaustiva da história do objecto a restaurar desde que foi fabricado. Antes de começar é preciso saber tudo. É necessário decidir o que fazer em coisas tão básicas como cor original, quais os interiores, o que fazer com a mecânica, o que manter de materiais e peças originais, como arranjar o que falta, etc. Depois vem uma desmontagem cuidada, para que o máximo de componentes possa ser analisado para ser recuperado para ser utilizado novamente e documentada para que todo possa ser montado novamente tal como foi originalmente.
O cuidado posto em alguns restauros é agora como nunca. A título de exemplo, antigamente tudo o que eram parafusos, porcas, braçadeiras de metal e outras pequenas peças, bem como forros interiores tapetes estofos etc. eram pura e simplesmente substituídos. Agora tudo este material é limpo ou metalizado de novo, e volta novamente para o automóvel sempre que for possível.
Muitas vezes, o que não é o caso deste MGC GT, a complicação é ainda maior. Quando se trata de carros especiais, pelo seu valor e raridade, e porque têm história ou vidas atribuladas, como alterações de carroceria e motores, ou que têm carreiras de competição que justificaram ao longo dos anos de actividade evoluções que muito alteraram a originalidade, há que decidir que período da sua vida deverá ser restaurado/reconstruído.
Só toda esta atitude de maior exigência no restauro, pode justificar os “barn finds” a preços aparentemente absurdos como o de um Jaguar E de 1961 (abaixo) leiloado pela Bonhams no ano passado por 110 mil Libras (GBP), entre outros exemplos.
Este valor fica ou nível de bons exemplares à venda bem restaurados. A razão desta aparente loucura parece ser só uma. Para quem gosta e tem os recursos financeiros necessários, a ideia de poder fazer melhor que os melhores já restaurados, está sempre presente. Nestes casos não há lugar a refazer, tem que se começar um projecto de restauro do zero. A importância de encontrar e adquirir um projecto, determina na minha opinião a escalada dos valores destes “barn finds” em leilão.
Qual a minha posição? Pessoalmente desde sempre gostei mais de carros preservados e sem restauro. Não porque fosse contra o restauro, mas porque nunca gostei do antigo conceito de carros ou motos demasiado restaurados, demasiado “plastificados”. É claro que podendo adquirir um bom restauro e melhor se já com alguns anos, não deixarei de o fazer. O bom senso é que manda e nem sempre obtemos exactamente o que idealizamos quando partimos à caça. Há automóveis absolutamente extraordinários que já só se encontram restaurados, felizmente muitas vezes com trabalhos excelentes. Acima de tudo gosto de guiar e usar os meus automóveis e motos porque tiro disso grande prazer. Tal como qualquer objecto antigo, gosto de ver e sentir o uso do tempo, um bom uso. Claro que esta opinião não me impede de mandar pintar quando é necessário ou substituir algum componente porque uso e preservação não é negligência. A mecânica deve estar em boas condições de funcionamento porque os carros são para ser guiados e porque gosto de viajar sem ter que regressar em cima de um reboque. Gosto dos meus carros limpos e bem cuidados e gosto de mostra-los, porque parto do principio que os outros terão tanto gosto como eu de ver passar estes carros desaparecidos das nossas ruas e estradas. É um prazer.
Para terminar este tema gostava de partilhar uma experiencia que vivi há uns anos e que ilustra de alguma forma o tema.
Em 1990 comprei um MGC GT de 1969 bege igualmente português, com interior vermelho (especificação original) que tinha tido somente 2 donos dos quais o último somente durante um ano. Era um carro muito usado essencialmente pelo primeiro proprietário no seu dia-a-dia, e a minha primeira preocupação foi fazer uma manutenção de mecânica que me permitisse usá-lo igualmente sem restrições. Revisão de motor, travões, sistema de arrefecimento, escape novo, jantes de raios novas, pneus novos, amortecedores e um espelho retrovisor original que substituísse a aberração de plástico que trazia aparafusado à porta do condutor. A carroceria apesar de ferrugem superficial não tinha aparentemente qualquer contaminação estrutural e por isso limitei-me a recuperar algum brilho da pintura que já era antiga, à custa de uma tarde de trabalho braçal de polimento braçal. Dos interiores na cor e forma original, já tinham sido substituídos os tapetes e forros de alcatifa por uma de menor qualidade e isto era evidente pela comparação com os poucos sítios mais escondidos com pouco uso, que se conservavam os originais. Por mais bons que sejam os forros e tapetes que se podem comprar agora, ainda não vi como os originais que tem um pelo como veludo em tamanho grande.
Tive o prazer de usar e gozar este carro durante 11 anos assim unicamente com a manutenção requerida de revisões e mudanças de óleo. O seu motor 6 cilindros de 3 litros e caixa com overdrive, rodava em estrada suavemente descansado e nunca nesses anos fiquei parado em lado nenhum.
Quando decidi vende-lo porque precisava de dar lugar a outro, a pessoa que o comprou fê-lo com a intensão de o desmanchar todo e fazer um restauro completo substituindo por novos uma parte substancial dos componentes.
Curiosamente fui assistindo a este processo e no final o carro aparentemente podia ter saído da linha de montagem (mesmo melhor nalguns aspectos).
O interessante desta história passa-se algumas semanas após este restauro quando recebo um telefonema do seu responsável, pedindo que lá fosse andar com o carro que ainda não tinha sido entregue ao dono. A ideia seria que tendo eu andado com ele tantos anos antes do restauro, lhe pudesse dar algum feed back da minha opinião sobre o que achava diferente e que eventualmente necessitasse de afinação e correcção para que pudesse transmitir a mesma sensação anterior.
O carro estava de facto como novo e assim saí da oficina e fui passear com ele antecipando o prazer de reencontrar um velho amigo. No entanto fiquei decepcionado. Apesar de todo o seu aspecto novo o carro já não era o mesmo. Era difícil de descrever, parecia que tinha perdido toda a sua suavidade. A direcção estava diferente a forma como curvava não era a mesma, andava de uma forma estranha, parecia tudo muito “apertado”, com uma suspensão demasiado amortecida, estava mais alto. Não sei.
Quando regressei tentei transmitir isto ao mecânico encarregado do restauro e ele parecia estar de acordo.
No fim o restaurador confidencio-me que o dono tendo guiado o carro imediatamente após ter-mo comprado, no período curto antes do restauro, quando foi guia-lo agora pela primeira vez não gostou da forma como o sentiu. Queria o mesmo carro de antes e por isso achou que a minha maior experiência pudesse encontrar os acertos necessários. A verdade é apesar to todo o meu input o carro pouco se alterou. Parecia não haver nada a fazer, era tudo novo, era um novo carro que só talvez com o passar dos anos pudesse recuperar essa sensação que anteriormente transmitia.
Este não é de certeza um caso único, não era a primeira vez que ouvia uma história destas.
O que aconteceu depois foi que este novo dono, apesar da enorme quantidade de dinheiro e trabalho gastos, não quis ficar com o carro e deu ordem ao restaurador que o vendesse. Esse carro foi vendido por uma soma substancialmente maior do que me tinha sido paga antes mas sinceramente não sei se compensou o custo do restauro. Sei que quem o comprou queria um carro exaustivamente restaurado e creio que não tinha qualquer experiência prévia com um carro igual. Ao que sei ficou satisfeito.
Para concluir este primeiro texto gostava de dizer que o restauro deste “novo” MGC GT respeitará tanto quanto possível o uso de todos os seus componentes originais depois de devidamente verificados e recondicionados e procurará, o mais possível, manter as sensações e o sentir da sua originalidade.
Ficam desde já convidados a seguir-me durante este processo, que estimo durará algum tempo, e no qual não deixarei de ir mostrando o que vou encontrando e fazendo, bem como aproveitarei para partilhar outras reflexões e vivências desta paixão que nos é comum.